Wokismo e a Mentalidade Revolucionária
Uma exploração profunda das raízes bíblicas e marxistas do movimento woke contemporâneo e o seu impacto no anti-semitismo global (baseada no trabalho de James Lindsay).
Introdução
As Três Frentes do Anti-Semitismo Moderno
O anti-semitismo contemporâneo manifesta-se através de três eixos distintos mas convergentes: a esquerda radical, a nova direita radical e o islamismo radical. Esta convergência representa um fenómeno único na história moderna, onde ideologias aparentemente opostas encontram terreno comum na sua hostilidade contra o povo judeu e o Estado de Israel.
Antes de 7 de outubro de 2023, muitos em Israel não compreendiam plenamente como este fenómeno ideológico global os afetava diretamente. O massacre perpetrado pelo Hamas revelou de forma brutal a interconexão entre estas três forças e a sua capacidade de mobilização contra Israel. O que parecia ser um movimento cultural ocidental distante transformou-se numa ameaça existencial tangível.
A questão central não é simplesmente sobre políticas ou territórios - é sobre a própria existência judaica. Cada um destes três eixos utiliza diferentes retóricas e estratégias, mas todos convergem num objetivo comum: questionar a legitimidade da presença judaica, seja na Europa histórica ou no moderno Estado de Israel. Esta convergência representa algo sem precedentes na complexidade do ódio anti-semita.
A Questão Judaica Transformada na Questão Israelita
Da Europa Medieval ao Século XXI
Historicamente, a Europa confrontou-se com o que chamavam "a Questão Judaica" - um eufemismo para o problema fundamental de "o que fazemos com os judeus que não queremos entre nós?" Esta questão atravessou séculos, manifestando-se em expulsões, guetos e, finalmente, no Holocausto.
Hoje, esta questão transformou-se. Já não se pergunta diretamente "o que fazemos com os judeus?", mas sim "o que fazemos com Israel?" O Estado de Israel tornou-se um proxy conveniente para o antigo ódio, permitindo que o anti-semitismo se disfarce de crítica política legítima.
Esta transformação é particularmente insidiosa porque permite que os anti-semitas modernos neguem o seu preconceito. Podem afirmar que não têm nada contra judeus, apenas contra o "colonialismo israelita" ou o "apartheid sionista", utilizando terminologia progressista para mascarar sentimentos ancestrais de ódio.
As Três Frentes Explicadas
Esquerda Radical
Utiliza a narrativa pós-colonial para retratar Israel como estado colonialista settler, aplicando teorias de raça crítica e opressão sistémica. Acusa Israel de genocídio e apartheid, utilizando a linguagem dos direitos humanos contra o próprio Estado judeu.
Nova Direita Radical
Foca-se na relação entre Estados Unidos e Israel, promovendo teorias conspiracionistas sobre influência judaica em governos ocidentais. Questiona a legitimidade da aliança estratégica e promove isolacionismo sob pretextos nacionalistas.
Islamismo Radical
Mantém uma posição mais direta de rejeição da presença judaica no Médio Oriente. O slogan "do rio ao mar" significa literalmente a eliminação de Israel como estado, incorporando objetivos genocidas em retórica de libertação nacional.
Estas três correntes, apesar das suas diferenças ideológicas profundas, encontram-se unidas na sua oposição a Israel. Partilham também uma preferência por modelos autoritários de governação, cada uma imaginando um estado totalitário perfeito sob a sua própria ideologia - seja ela religiosa, racial ou económica.
Alianças Improváveis: Quando Extremos se Encontram
Uma das características mais perturbadoras do anti-semitismo contemporâneo é a capacidade destas três forças ideológicas díspares de encontrarem terreno comum. Candace Owens, anteriormente uma voz conservadora mainstream, admitiu publicamente que se encontra a concordar com a esquerda em questões fundamentais - sendo a questão israelita a mais proeminente.
Tucker Carlson, outra figura da direita americana, quando questionado sobre a lei Sharia, respondeu: "Sharia não significa simplesmente submeter-se a Deus? Não é esse o objetivo da vida?" Esta convergência entre conservadorismo ocidental e islamismo político representa uma aliança que teria sido impensável há uma década.
O eixo vermelho-verde - a aliança entre a esquerda radical e o islamismo - tem raízes mais profundas do que muitos imaginam. Sayyid Qutb, autor de "Marcos no Caminho" e figura fundacional do islamismo moderno, estava profundamente imerso no leninismo antes de escrever o seu manifesto. A estrutura do seu trabalho copia deliberadamente "O Que Fazer?" de Lenin, o roteiro para os bolcheviques.
Esta não é uma simples aliança de conveniência, mas uma convergência operacional. Ambos os movimentos partilham um modelo bolchevique de insurgência cultural, uma metodologia comum para desestabilizar sociedades existentes e substituí-las por ordens totalizantes. O inimigo comum - Israel e os judeus - torna-se o catalisador que une estes movimentos aparentemente incompatíveis.
Raízes Bíblicas
No Princípio: Génesis 3 e 4
A Origem do Ressentimento
Para compreender verdadeiramente as raízes do wokismo, devemos começar no Génesis. No terceiro capítulo, encontramos a serpente que questiona Eva: "Foi mesmo Deus que disse...?" Este momento de dúvida, de questionamento da ordem moral estabelecida, representa o primeiro passo numa trajetória que atravessa toda a história humana.
A serpente não apenas tenta Eva - sugere que Deus está a esconder algo, que há uma verdade mais profunda que lhes está a ser negada. "Deus sabe que no dia em que comerdes dele, os vossos olhos se abrirão e sereis como Deus." Esta é a primeira teoria conspiracionista: a autoridade não quer o vosso bem, quer manter-vos submissos e ignorantes.
No capítulo seguinte, vemos a manifestação desta atitude em Caim. Quando a sua oferta é rejeitada e a de Abel aceite, Caim não reflete sobre como pode melhorar. Em vez disso, decide que o mundo está errado e que Abel deve pagar. Esta é a essência do espírito de Caim: inveja que se recusa a autocorreção e exige que a realidade se conforme às suas expectativas.
O Espírito Eterno de Caim
Ressentimento
A amargura profunda de que o mundo não reconhece o valor próprio, de que outros recebem o que nos é devido. Caim ressentia-se da aceitação de Abel por Deus, tal como os revolucionários modernos ressentem-se do sucesso alheio.
Inveja
Não apenas o desejo de ter o que outros têm, mas o desejo de que outros não o tenham. A inveja de Caim não o levou a melhorar a sua oferta, mas a destruir aquele cuja oferta foi aceite. É um impulso destrutivo, não construtivo.
Direito Presumido
A crença de que se merece aquilo que não se ganhou, de que a realidade deve conformar-se às nossas expectativas. Caim presumia que a sua oferta seria aceite, não porque fosse boa, mas porque ele a ofereceu.
Recusa de Autocorreção
Quando confrontado com o fracasso, Caim não perguntou como poderia fazer melhor. Culpou forças externas e agiu violentamente contra aquele que representava o seu fracasso. Esta recusa de responsabilidade pessoal é fundamental.
Estes quatro elementos - ressentimento, inveja, direito presumido e recusa de autocorreção - formam a base psicológica do que hoje chamamos wokismo. Quando se pergunta se alguma vez venceremos o woke, a resposta é bíblica: não. Esta é uma luta geracional constante, porque estes impulsos são parte da natureza humana caída. Cada geração deve enfrentar novamente o espírito de Caim em novas formas.
Modernidade
Marx: A Destilação Moderna
Karl Marx representa a destilação moderna deste espírito ancestral. Nos últimos 500 anos da era moderna, Marx codificou estas atitudes bíblicas numa filosofia política sistemática. A sua divisão fundamental entre opressores e oprimidos - burguesia versus proletariado - é apenas uma reformulação da narrativa de Caim e Abel.
Marx ensina que os trabalhadores são alienados, explorados, estrangeiros na sua própria existência. Tal como a serpente sugeriu que Deus escondia a verdade, Marx sugere que a classe dominante esconde a verdadeira natureza da realidade. Os trabalhadores são impedidos de ver que são genuinamente socialistas, que a sua verdadeira natureza está a ser suprimida pelo capitalismo.
A promessa marxista é essencialmente uma promessa de retorno ao Éden. "De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades" - isto é a plenitude, a abundância absoluta. Marx literalmente promete restaurar o Jardim através da revolução. Esta não é metáfora; em vários textos marxistas encontra-se esta linguagem explícita de restauração paradisíaca.
O caminho para esta consciência, segundo Marx, é através do sofrimento. Não há consciência sem dor. Portanto, o marxismo não procura aliviar o sofrimento - procura amplificá-lo, focá-lo, transformá-lo em combustível revolucionário. A miséria não é um problema a resolver, mas uma ferramenta a utilizar para despertar a consciência de classe e motivar a revolução.
O Vírus Ideológico e os Seus Receptores
A Metáfora Viral
É útil pensar no marxismo - e posteriormente no wokismo - como um vírus mental ou societal. Não é uma doença física nem uma doença mental clínica, mas uma infeção ideológica que adoece instituições, países inteiros e indivíduos. A sua crença estrutural torna-se corrupta; poder-se-ia dizer que ficam espiritualmente doentes.
Tal como os vírus biológicos, este vírus ideológico necessita de receptores específicos para se ligar e infetar. Na Rússia do início do século XX, uma sociedade feudal de camponeses, o receptor estava presente. Quando se dizia aos camponeses "olhem o que o Czar vos faz, estão a ser oprimidos", a mensagem ressoava. Paz, terra e pão - podiam ter tudo isto através da revolução.
E funcionou. A Revolução Bolchevique instalou a primeira república socialista soviética. O mesmo vírus, a mesma mensagem, tinha encontrado o receptor certo na sociedade russa. A divisão económica entre aristocracia e campesinato forneceu o ponto de entrada perfeito para a ideologia revolucionária.
O Problema Ocidental
Mas quando tentaram replicar este sucesso no Ocidente industrializado - especialmente na América - encontraram um problema. Não podiam culpar um Czar que não existia. As pessoas tinham liberdade, oportunidade económica, mobilidade social. O capitalismo, para grande frustração dos revolucionários, funcionava razoavelmente bem.
O receptor para o vírus não estava lá. A divisão económica simples não era suficientemente aguda para motivar revolução em massa. Os trabalhadores ocidentais podiam, através do capitalismo, construir vidas melhores para si próprios. Quando isso acontecia, tornavam-se conservadores e até contra-revolucionários.
Os teóricos críticos da Escola de Frankfurt debruçaram-se sobre este problema em meados do século XX. A sua conclusão chocante: o capitalismo permite que os trabalhadores construam vidas melhores, tornando-os conservadores. Portanto, os trabalhadores não podem ser a base para revolução em países como a América.
A Solução: Política de Identidade
Se os trabalhadores não podiam ser mobilizados através de apelos económicos no Ocidente capitalista, era necessária uma nova estratégia. A solução veio através da política de identidade - transformar o foco da classe económica para identidades de raça, género, sexualidade e outras categorias.
Herbert Marcuse, escrevendo nos anos 60, frustrado com o fracasso do marxismo tradicional na América, declarou abertamente: "Os trabalhadores já não são a base para revolução. Precisamos de uma nova classe trabalhadora, um novo proletariado." Este novo proletariado seriam grupos marginalizados definidos não por classe económica, mas por identidade.
Esta transição foi brilhante na sua simplicidade. Em vez de dizer "vocês são explorados economicamente", passou-se a dizer "vocês são oprimidos sistemicamente pela vossa raça, género ou orientação sexual". O capitalismo poderia resolver problemas económicos individuais, mas a opressão sistémica baseada em identidade era apresentada como intratável sem revolução total.
Crucialmente, esta mudança permitiu que o vírus ideológico encontrasse novos receptores numa sociedade onde os receptores económicos tinham desaparecido. A mesma estrutura marxista básica - opressor versus oprimido, consciência falsa versus consciência verdadeira, revolução como salvação - permaneceu intacta. Apenas os grupos específicos mudaram.
Esta é a génese do movimento woke moderno. Não é uma nova ideologia, mas o marxismo adaptado para encontrar receptores numa sociedade capitalista bem-sucedida. A estrutura profunda permanece marxista; apenas a superfície foi reformulada em termos de identidade em vez de economia.